Se você olhou para os pés de alguém na rua recentemente e achou que o tênis estava absurdamente alto, pode ter uma explicação além da moda: o maximalismo tomou conta do mercado esportivo e está redefinindo o que um tênis de corrida deve ser — e parecer.
A tendência não é nova, mas ganhou força nos últimos anos de um jeito que surpreende até quem acompanha o setor de perto. As entressolas — aquela parte entre o cabedal e o solado — cresceram tanto que alguns modelos chegam a lembrar tamancões ou plataformas de anos 90. Só que, diferente da moda de décadas atrás, aqui a justificativa é técnica.
A lógica do trampolim
A ideia central do maximalismo é a chamada responsividade. As marcas desenvolveram espumas de alta tecnologia que, em teoria, devolvem energia ao corredor a cada passada — como se você estivesse saltando levemente em um trampolim durante toda a corrida. Quanto mais espuma, mais energia devolvida. Pelo menos é o que a promessa diz.
E o mais impressionante é que, mesmo com entressolas cada vez mais volumosas, as marcas conseguiram manter os tênis relativamente leves. É um feito de engenharia que não pode ser ignorado.
A Fila, por exemplo, é uma marca historicamente associada ao minimalismo — tênis com pouco amortecimento, solado fino, contato próximo ao chão. Mas até ela cedeu à onda. Seu principal lançamento de 2026, o Speedrocker, tem 55 mm de altura entre o pé e o solo. Quase seis centímetros. Para uma marca com esse DNA, é uma virada e tanto.
A Brooks também entrou pesado com o Glycerin Max, chegando a 47 mm no calcanhar. A Adidas lançou o Hyperboost Edge com 45 mm. São números que até há pouco tempo seriam impensáveis fora de um protótipo de laboratório.
Mas funciona para todo mundo?
Aqui entra o contraponto que o mercado prefere não destacar nos anúncios: o efeito trampolim das entressolas superamortecidas é mais perceptível em corredores de alta performance, que pisam com mais força e frequência. Para quem corre em ritmo moderado — que é a maioria das pessoas — a sensação pode ser bem mais sutil do que a promessa sugere.
Isso não significa que o amortecimento extra seja ruim. Para quem tem problemas articulares, corre em superfícies duras por longos períodos ou simplesmente prefere mais conforto, o maximalismo pode ser uma excelente escolha. Mas comprar um tênis de 55 mm imaginando que ele vai transformar sua corrida pode gerar uma expectativa que o produto não entrega.
O outro lado: menos é mais
Enquanto o mercado mainstream corre para cima, uma comunidade pequena mas bastante vocal defende exatamente o caminho oposto. Os adeptos do minimalismo radical — tênis com zero drop e quase nenhum amortecimento — argumentam que obrigar a musculatura a fazer o trabalho é mais eficiente e saudável a longo prazo. É uma filosofia de corrida tanto quanto uma escolha de calçado.
São dois mundos que dificilmente vão se encontrar no meio do caminho, e tudo bem. O que vale é entender que nenhum dos dois é universalmente certo.
E o visual?
Separando a função da forma: esteticamente, os tênis maximalistas já transbordariam do universo esportivo para a moda há algum tempo. A silhueta volumosa combina com a estética chunky que dominou o streetwear nos últimos anos, e muita gente usa esses modelos no dia a dia sem jamais pisar numa calçada de corrida.
É a intersecção perfeita entre performance e estilo — ou pelo menos a narrativa que as marcas constroem muito bem. E, por enquanto, o mercado parece estar comprando.
No fundo, a pergunta que fica é: seu tênis trabalha por você, ou você trabalha pelo seu tênis?
e