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A criatura de 507 milhões de anos que era avó das aranhas e escorpiões

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Imagine um mar quente cobrindo o que hoje é o deserto de Utah. No fundo desse mar, uma criatura estranha vasculhava o sedimento com duas pinças enormes, caçando presas ou se alimentando de carniça. Ela media menos de 9 centímetros, mas carregava um segredo que levou meio bilhão de anos para ser revelado.

Esse animal, batizado de Megachelicerax cousteaui, acaba de ser descrito em estudo publicado na revista Nature — e ele mudou o que sabíamos sobre a origem de um dos grupos mais bem-sucedidos da história da vida na Terra.

Os quelicerados são animais que possuem um par de apêndices em forma de pinça chamados quelíceras. O grupo inclui mais de 120 mil espécies conhecidas: aranhas, escorpiões, ácaros, caranguejos-ferradura. Praticamente todo mundo já cruzou com um deles. Mas quando exatamente esses animais surgiram era uma pergunta sem resposta definitiva — até agora.

O fóssil foi coletado por Lloyd Gunther, um colecionador amador, na Formação Wheeler, no oeste de Utah, e doado ao Museu de História Natural da Universidade do Kansas em 1981. Por quase quatro décadas, ficou guardado numa gaveta, parecendo apenas a marca enferrujada de um parafuso gigante.

Em 2019, o paleontólogo Rudy Lerosey-Aubril, de Harvard, tirou o fóssil do esquecimento. Passou mais de 50 horas removendo a rocha ao redor, e o que emergiu foi surpreendente: um escudo cefálico circular, nove segmentos corporais, brânquias em forma de lâminas — e aquelas pinças inconfundíveis na frente do corpo.

“Encontrar as pinças é a característica de ouro que precisávamos para concluir que se trata de um quelicerado”, disse Javier Ortega-Hernández, paleontólogo de Harvard e coautor do estudo. “Não é nem uma prova circunstancial — é a arma sendo disparada bem na sua frente.”

A descoberta antecipa em 22 milhões de anos a evidência fóssil mais antiga conhecida do grupo, que até então datava do início do Período Ordoviciano, há cerca de 485 milhões de anos. O Megachelicerax viveu no Cambriano Médio, há aproximadamente 507 milhões de anos.

O nome da espécie carrega duas histórias. Megachelicerax vem do grego e significa, basicamente, “grande garra cornuda” — uma referência óbvia às pinças do animal. Já cousteaui é uma homenagem ao explorador oceânico Jacques Cousteau, herói pessoal do francês Lerosey-Aubril. A metáfora é bonita: “Cousteau estava descobrindo o que havia abaixo da superfície”, disse o pesquisador. “Fazemos o mesmo, mas em vez da profundidade do mar, estamos olhando para a profundidade do passado.”

Megachelicerax era, provavelmente, um coadjuvante num ecossistema dominado por trilobitas. Mas aquelas pinças eram apenas o começo. Quando os quelicerados rastejaram para a terra firme, encontraram um mundo sem concorrentes — e conquistaram cada canto do planeta.

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